Thursday, 2 January 2014

O porquê e o «por quê» (e o português europeu)

O porquê e o «por quê» (e o português europeu)

[Pergunta] Tenho verificado o uso de «por quê» em algumas traduções, nomeadamente, em contexto televisivo. O que me causa alguma estranheza, pois para mim, seja pronome interrogativo ou substantivo, porquê é sempre justaposto. Ao contrário da grafia brasileira que só usa o porquê justaposto, quando se trata de um substantivo.
Penso que esta confusão se deverá ao fenómeno do porque/«por que (razão)». No entanto, gostaria que me esclarecessem se existe alguma regra em português europeu em que o «por quê» se aplique.
Obrigada.

Helena Fernandes :: Tradutora :: Marinha Grande, Portugal

[Resposta] Não encontrei nenhuma referência que justifique o uso de por quê, enquanto locução, embora, tal como a consulente, tenha encontrado, em linha, algumas situações em que é usado.
Creio que poderá ser, como refere, uma interferência do uso de porque e por que. No entanto, a prática mais comum em Portugal é o uso de porquê, tanto nas interrogativas directas como nas indirectas, ou, ainda, quando o vocábulo é usado como substantivo.

Edite Prada :: 04/07/2011

Porquê

Porquê

[Pergunta] O acento circunflexo no «porquê» só se utiliza em posição final ou, também, como no exemplo da pergunta anterior (porquê perguntaste isso?)?

Vanessa Borgmann :: Professora de português num escola de línguas :: Essen, Alemanha

[Resposta] O vocábulo porquê pode ser advérbio interrogativo e substantivo.
1) Advérbio interrogativo:
a) Andas triste, porquê? Anda, fala e diz-me lá porquê.
b) Porquê tanta maldade no mundo?
2) Substantivo:
É substantivo, quando significa causa, motivo, razão:
c) Precisamos de investigar o porquê dos acontecimentos para os compreendermos.
O nosso escritor Fernão Lopes, do séc. XV, escreveu esta frase:
d) Acorramos ao Mestre, amigos, acorramos ao mestre, que matam sem porquê.
Como substantivo, pode-se empregar no plural:
e) Os porquês de tudo isto sei-os, mas não os digo.
Como advérbio, porquê pode-se empregar no princípio, no meio e no fim da frase:
f) Porquê tudo isto?
g) Respondi assim não sei porquê, mas para a outra vez hei-de pensar melhor.
h) Respondi assim, mas não sei porquê.
Como advérbio, emprega-se porquê no princípio da frase, quando se omite o verbo. É o que vemos, por exemplo, nas frases b) e f).
Com o verbo expresso, substitui-se porquê por porque:
i) Porque aconteceu tudo isso? (Cf. frases).
Com frases desta natureza, podemos também empregar o porquê no fim:
j) (Há) tantas maldades no mundo porquê?
l) Tudo isto (aconteceu) porquê?
Quando porquê vem no princípio da frase, pode ser precedido de palavras como mas, então, mas então:
m) Mas / Então / Mas então porquê tudo isso?
Note-se o seguinte: na frase g), o porquê está no interior da frase, mas no fim da oração. Isto é, porquê pode-se empregar no fim da frase e no fim da oração.

Porquê pode-se empregar no início duma frase com verbo expresso, quando esse verbo está no infinitivo pessoal:
n) Porquê acreditar em tudo isso?
o) Porquê acreditarmos nós em tudo isso?

J.N.H. :: 13/08/1997

Porque, por que e porquê

Porque, por que e porquê

[Pergunta] Em que circunstâncias se escreve porque ou por que?

António José Teixeira :: Jornalista do "DN" :: Lisboa, Portugal

[Resposta] 1 – Escreve-se porque
a) Quando é conjunção causal: «Não saio, porque está a chover.»
b) Quando é conjunção final. Neste caso é igual a para que, a fim de que, para: «Manda dous mais sagazes, ensaiados/ Porque notem dos mouros enganosos/ A cidade e poder, e porque vejam/ Os Cristãos, que só tanto ver desejam» (Os Lusíadas, II, 7).
c) Quando é advérbio interrogativo: «Porque não vens comigo?» «Porque faz ele isto?»
Nestas orações interrogativas directas, é um advérbio, porque está ligado a um verbo.
Também é advérbio interrogativo nas orações interrogativas indirectas: «Diz-me lá porque faltaste à aula.» «O pai perguntou-lhe porque não veio.»
A palavra porque também é advérbio interrogativo depois do advérbio eis em frases do tipo destas: «Eis porque havemos de ser tolerantes.» «Eis porque não concordo contigo.»
O porque também é advérbio interrogativo em títulos de livros, como por exemplo: Porque Viemos. Porque Sou Cristão.
2 – Escreve-se por que:
a) Quando por é preposição e que é pronome relativo (isto é, por que = pelo qual, pela qual, pelos quais, pelas quais). Exemplos: «Este é o dinheiro por que (pelo qual) vendo a casa.» «A ideia por que (pela qual) luto é a melhor.» «Os 100 contos, por que (pelos quais) vendi o carro, dá-los-ei aos pobres.» «Estão à vista as causas por que (pelas quais) ainda te conservas na minha casa.»
b) Quando por é preposição e o que é pronome interrogativo adjunto: (chama-se adjunto por vir junto dum substantivo, ligado ele pelo sentido). Exemplos: «Por que (= por qual) razão/motivo/causa/pretexto, etc., não vieste ontem?» «Por que (= por quais) livros aprendeste?»
c) Quando por é preposição e que é pronome interrogativo:«Por que esperas? (= por que coisa esperas?)». «Que coisa esperas?»
3- Porquê
Escreve-se porquê, quando é advérbio interrogativo ou é substantivo:
a) Advérbio interrogativo:
- Andas triste, porquê?
- Porquê toda essa azáfama?
b) Substantivo. É-o, quando significa causa, motivo, razão, como na frase seguinte:
- Precisamos de investigar o porquê dos acontecimentos.

José Neves Henriques :: 01/01/1997

O se das construções impessoais reflexas

O se das construções impessoais reflexas

Esta é uma controvérsia sobre a função sintática do pronome se.
Surgiu a propósito da seguinte pergunta chegada ao consultório do Ciberdúvidas: no segmento «Diz-se que o João é bom aluno?» — quis saber a professora Isabel Santiago —, a oração subordinada substantiva completiva desempenha a função de sujeito, ou de complemento direto?
A resposta de Virgílio Catarino Dias teve a discordância de Fernando Bueno, em A Construção impessoal reflexa (II), que justificou a réplica A Construção impessoal reflexa (III).
Ponto de vista diferente assina-o também Maria Regina Rocha, em O clítico se, as construções passivas e as impessoais e os predicativos.

15/05/2012

Wednesday, 1 January 2014

Sobre exemplos de infinitivo não flexionado

Sobre exemplos de infinitivo não flexionado

[Pergunta] Apesar de ser um tema recorrente, gostaria da opinião objetiva dos consultores sobre a seguinte afirmação encontrada em outra gramática: «Se o infinitivo é complemento de verbo, adjetivo ou substantivo, não devemos flexionar», na qual apresenta os seguintes exemplos:
a) «Ele sempre proíbe os empregados de sair no horário»;
b) «Não estamos dispostos a desistir tão facilmente».
Se considerarmos que em a) o sujeito do verbo «proíbe» é «ele», e o do verbo «sair» é «os empregados», não seria correto flexionar o infinitivo sair? Ou o correto é mesmo não o flexionar, e analisá-lo como integrante da sequência «proíbe de sair». Com relação ao exemplo b), usando o mesmo raciocínio de se identificar o sujeito, percebe-se claramente que só há um, que se encontra subentendido («nós»). Ou aqui cabe a análise de que o infinitivo é complemento do adjetivo «dispostos»?

Valter da Silva Pinto :: Oficial de justiça :: Mogi das Cruzes, Brasil

[Resposta] Analisemos então os exemplos apresentados:
a) «Ele sempre proíbe os empregados de sair no horário.»
Embora nesta construção existam dois sujeitos diferentes, o verbo da primeira oração (proibir) é abrangido por uma regra diferente.
Assim, a forma verbal «sair» está dependente de um verbo causativo (proibir, à semelhança de deixar, mandar, fazer e outros). Segundo Napoleão Mendes de Almeida (Dicionário de Questões Vernáculas), quando se apresenta um infinitivo («sair») com sujeito próprio («os empregados»), dependente de um verbo («proíbe») que tem sujeito próprio («ele»), o infinitivo não se flexiona:
«Ele sempre proíbe os empregados de sair no horário.»
Para Evanildo Bechara (Moderna Gramática Portuguesa), esta é também a norma. Em Portugal, no entanto, existe uma maior flexibilidade, pois «costuma ocorrer também a forma flexionada quando entre o auxiliar e o infinitivo se insere o sujeito deste, expresso por substantivo ou equivalente» (Nova Gramática do Português Contemporâneo, de Celso Cunha e Lindley Cintra):
«Ele sempre proíbe os empregados de sair no horário» ou
«Ele sempre proíbe os empregados de saírem no horário».
Em todos os autores, se a forma infinitiva vier imediatamente depois desses verbos ou separada deles apenas pelo sujeito, expresso por um pronome oblíquo, emprega-se sempre a forma não flexionada:
«Ele proíbe-os de sair no horário» e não
*«Ele proíbe-os de saírem no horário».
b)  «Não estamos dispostos a desistir tão facilmente.»

Neste exemplo, o infinitivo não pode ser flexionado. Para além de haver um único sujeito («nós»), é como se o infinitivo fizesse parte de uma locução verbal:
 «Não estamos dispostos a desistir tão facilmente» =
= «Não nos dispomos a desistir tão facilmente»,
«Não queremos desistir tão facilmente».
Este exemplo pode ser inserido numa norma segundo a qual não flexionamos o infinitivo quando este é complemento de um adjectivo, de um substantivo ou de um verbo em construções que correspondem a determinadas formas latinas, que vieram a ser substituídas por preposição mais infinitivo.
São exemplo disso:
«Em pânico, as pessoas ficam incapazes de raciocinar»;
«Eles estão destinados a realizar grandes feitos»;
«Deixámos algumas cartas por escrever»;
«Tais resultados eram de prever».
O mesmo acontece quando o infinitivo é complemento de substantivo ou de adjectivo e tem sentido passivo:
«Estes são ossos duros de roer»; «Há muitas tarefas por realizar».
Penso que o excerto gramatical que transcreve se refere a esta regra, mas, sem outro enquadramento, pode induzir em erro, dado que esta é uma matéria bastante vasta e complexa.

Maria João Matos :: 08/02/2010

Oração adverbial com infinitivo flexionado e não flexionado

Oração adverbial com infinitivo flexionado e não flexionado

[Pergunta] Gostaria que me esclarecessem a seguinte dúvida:
«Ora certa noite, e já depois de se ter deitado, a mãe lembrou-se de que se calhar não tinha deixado o lume bem acondicionado para não pegar fogo.(...) Eis senão quando, ao passar ao quarto do filho, viu por debaixo da porta uma risca de luz. (...) A mãe nem queria acreditar.»
A Estrela, de Vergílio Ferreira
Neste contexto, a forma verbal passar é um infinitivo pessoal, ou impessoal?
Passar refere-se à mãe (sujeito), contudo também podemos considerar «ao passar ao quarto do filho (...)» como um grupo móvel, o que me leva a pensar que, assim sendo, se trata de um infinitivo impessoal.
Grato pela vossa colaboração.

Miguel Soares :: Estudante :: Viana do Castelo, Portugal

[Resposta] Considero que o verbo na oração subordinada adverbial reduzida de infinitivo em apreço é ambíguo. Tanto pode ser o infinitivo pessoal como o impessoal:
1) «Eis senão quando, ao passar ao quarto do filho, viram por debaixo da porta uma risca de luz.»
2) «Eis senão quando, ao passarem ao quarto do filho, viram por debaixo da porta uma risca de luz.»
As duas frases estão correctas. Em 1, não é obrigatório o emprego do infinitivo flexionado, porque o sujeito subentendido da subordinante controla, digamos assim1, o sujeito nulo da oração subordinada, à semelhança do que ocorre numa oração final de infinitivo:
3) a. «Passaram pela aldeia para visitar a avó.»
     b. «Passaram pela aldeia para visitarem a avó.»
O infinitivo não flexionado em 3a aproxima a oração de um modificador adverbial («para uma visita à avó»). A opção pelo infinitivo flexionado em 3b, apesar de redundante, sublinha maior dinamismo do estado de coisas que é referido pela oração e pode ser substituído por uma oração subordinada final finita («para que visitassem a avó»).
O facto de as orações subordinadas de adverbiais de infinitivo se comportarem como outros modificadores, que, entre certos meios pedagógicos, se designam globalmente por grupo móvel, não afecta a possibilidade de ocorrência das duas construções:
4) «Eis senão quando viram por debaixo da porta uma risca de luz, ao passar ao quarto do filho.»
5) «Eis senão quando viram por debaixo da porta uma risca de luz, ao passarem ao quarto do filho.»
1 Trata-se de um aspecto gerador de certa controvérsia entre sintacticistas, como se mostra em M.ª Helena Mira Mateus et alii, Gramática da Língua Portuguesa (Lisboa, Editorial Caminho, 2003: 824/825).

Carlos Rocha :: 25/02/2010

Infinitivo flexionado, outra vez

Infinitivo flexionado, outra vez

[Pergunta] Li em uma fonte de estudo que se emprega o infinitivo não-flexionado também quando for complemento de verbo, substantivo ou adjetivo e vier antecidado de preposição.
   Exemplos: «Aconselho os jovens a ler mais.»
   «Pai e filho tiveram a experiência de estudar juntos.»
   «São bulas fáceis de entender.»
   Pergunta: Sendo assim devo falar:
  «Os alunos precisam estar aptos a comunicar-se em inglês. (e não "a comunicarem-se")». «Estamos proporcionando aos alunos a oportunidade de colocar em prática os conhecimentos (e não "colocarem").»
  «Foi-lhes dada a oportunidade de testemunhar (ë não "testemunharem").»
   É isto mesmo?

Rosiléia Zavarize Costa Corker :: :: Brasil

[Resposta] A língua/linguagem não é somente para ser compreendida; é também para ser sentida. Daqui se compreende que haja algumas regras para o emprego do infinitivo pessoal e impessoal, mas que em certas frases empreguemos um ou outro conforme sentirmos que fica melhor. Vejamos então:
1. - Emprega-se o infinitivo pessoal flexionado, quando ele tem sujeito próprio. É o caso desta frase apresentada, que deve ser dita assim:
(a) «Aconselho os jovens a lerem mais.»
O sujeito da 1.ª oração é eu. O sujeito da 2.ª oração é os jovens. O verbo ler tem sujeito próprio, os jovens. Sujeito no plural, verbo no plural.
Vejamos a segunda frase:
(b) «Pai e filho tiveram a experiência de estudar juntos». Aqui, empregamos o infinitivo não flexionado, porque ele não tem sujeito próprio: o sujeito de estudar é também o sujeito de tiveram.
(c) «São bulas fáceis de entender.»
O sujeito de entender é a gente:
«São bulas fáceis de (a gente as) entender.»
(d) «Os alunos precisam estar aptos a comunicar-se em inglês.»
(e) «Estamos proporcionando aos alunos a oportunidade de colocar em prática os conhecimentos.
(f) Foi-lhes dada a oportunidade de testemunhar.»
Na frase (d), embora o sujeito de precisam estar seja o mesmo de comunicar, é preferível dizê-la assim:
(d) «Os alunos precisam de estar aptos a comunicarem-se em inglês.»
O verbo deve ir para o plural para ressaltar a necessidade de comunicarem uns com os outros. De resto, sentimos que assim fica melhor linguagem: mais expressiva.
Nota. – O correcto é dizermos «... precisam de estar aptos...», porque quem precisa «precisa de» – «de alguma coisa» e não «precisa alguma coisa», sem a preposição de. A frase (e), para estar correcta, deve ter o infinitivo pessoal no plural, porque tem sujeito próprio, que é eles, subentendido:
(e) «Estamos proporcionando aos alunos a oportunidade de (eles) colocarem em prática os conhecimentos.»
A frase (f) deve ter o infinitivo pessoal no plural pela mesma razão:
(f) «Foi-lhes dada a oportunidade de (eles) testemunharem.»

José Neves Henriques :: 15/10/1998